Incêndios de Verão

Este Verão tem sido negro para o Distrito de Viana em termos de incêndios. O Concelho de Arcos de Valdevez tem sido dos mais atingidos. Não escapou a Serra de Soajo e a mata da Miranda.

Santa Cristina

É uma visão desoladora, fazer o IC28, ou a Nacional 202, e ver enormes manchas negras nas montanhas. Até dói o coração ver a a Serra de Soajo queimada. Uma das paisagens mais bonitas do país reduzidas a cinzas. E, se a zona de mato, dentro de 2 anos estará parecida, as enormes árvores foram-se! talvez os meus netos possam voltar a apreciar aquilo que o Mezio foi em tempos…

Santa Cristina

O Ricardo Araújo Pereira dizia num artigo de humor na Visão que “Toda a gente está preparada para a Volta a Portugal em Bicicleta, mas ninguém espera a Volta a Portugal em Carro de Bombeiros, que decorre todos os anos exactamente na mesma altura” . Infelizmente, tem razão. Todos os anos é o mesmo drama. Todos os anos  há zonas do país que ardem exageradamente, apesar dos milhões investidos em equipamentos e formação dos bombeiros. Até ao dia 15, segundo a entidade da UE que monitoriza as áreas ardidas, teriam sido destruídos cerca de 120 mil hectares de mato na Europa. Desses, 100 mil foram em Portugal… porquê esta diferença? Só Portugal teve um Verão quente e Seco? Em Espanha, que é 7 vezes maior e que tem características próximas das nossas, quanto ardeu? Itália, que é conhecida como o país do desgoverno e coisas muito piores?

O Ministro da Agricultura veio dizer que ardeu menos que 2003 e 2005, mas não disse que ardeu mais que 2007, 2008 e 2009 juntos! É claro, a culpa é do clima. De S. Pedro porque ficou com a água toda para ele…

Mas o que é que se passa em Portugal, que faz com que os incêndios ocorram ano após ano, a não ser que não haja verão, como em 2009, o que torna difícil os fogo alastrar-se! Em Távora S. Vicente, o fogo consumiu a floresta ao longo de um mês! No dia 8 de Julho, choveu torrencialmente de noite, e de manhã o fogo lá estava de novo.

O que se passa em Portugal, são várias calamidades ao mesmo tempo.

Logo o povo. Sem cultura, sem educação a sério, que os torne civilizados. Isso vê-se em todo o lado. No lixo lançado pela janela do automóvel, pelo estacionamento em rotundas, passeios, pelo cigarro atirado para qualquer lado, para o sacos que se atiram o meio natural, pela má educação que infelizmente é normal!

Depois os governantes, deste a presidência da república às presidências das juntas. É claro que, como em todas as profissões, há gente competente e gente incompetente. Mas, se de uma forma geral se pode dizer que as pessoas são competentes e haverá alguns menos competentes, na política o relação é inversa. Constituída por gente que pouco mais sabe fazer do que ter um cargo político, subindo normalmente devido a amizades e não devido ao mérito, com troca de favores, as decisões que tomam reflectem esta realidade!

Foi chocante, para não dizer coisas piores, ver os nossos dois mais altos governantes a saírem do comando nacional da protecção civil e a dizerem que estavam satisfeitos, quando o nosso Parque Nacional ardia sem controlo. E, um ministro a dizer que afinal, não tinha ardido tanto como em 2003 e 2005, quando arderam partes significativas de duas reservas naturais, o Parque Nacional da Peneda-Gerês e o Parque Natural da Serra da Estrela. Viu-se um ministro a dizer que nacionalizava os terrenos cujos proprietários não fossem conhecidos. Eu até concordo com a ideia, mas… será o estado competente a limpar as suas matas? Não me parece, pois muitos dos hectares que arderam são estatais, e não se encontram limpos!

Mas o que podiam fazer os nossos governantes?

Primeiro uma política de prevenção verdadeiramente séria. Limpar as matas é essencial. Mas não chega dizê-lo! É necessário medidas que o torne efectivo. É necessário que os proprietários que não limpem sejam responsabilizados. Mas também é necessário que sejam apoiados. O custo da limpeza dos montes não é coberto pelos lucros que ele dá! O que eu já gastei a limpar duas pequenas parcelas dificilmente terá retorno. Hoje em dia, proprietários como eu, não tem essas parcelas pelo lucro, tem porque era dos nossos avós, e ganha-se gosto. Pessoalmente, se o estado garantisse a sua limpeza, cedia-as de bom gosto. Como é que o estado pode ajudar? Por exemplo redistribuindo os subsídios que vem da UE. Outra medida, já avançada pelo CDS, é que os beneficiários do Rendimento Social de Inserção e desemprego dêem apoio. Não acho que essas pessoas sejam usadas como escravas, mas se o estado pagasse um dia de subsidio e o proprietário pagasse mais um complemento, todos ficavam a ganhar!

No entanto, a limpeza dos montes só por si, não garante a ausência de incêndios, a menos que se retire toda a matéria orgânica… algo impossível. E, a não ser que todo esse trabalho seja feito no fim de junho, tudo volta a crescer. Também, quando estamos a falar de Reservas, se pretende preservar as espécies autóctones, não se pode andar a limpar. O Parque Nacional foi classificado pela IUNC porque tem pouca intervenção humana. Se há demasiadas intervenções, perde o estatuto.

Assim, é necessário muito mais:

Reflorestação com espécies autóctones, mais adaptadas ao meio e que contribuem menos para a proliferação do fogo. O carvalho alvarinho e negral, por exemplo. É claro que isto tem custos para a rentabilidade, por isso é necessário apoio estatal. Uma parte do que foi “queimado” no BPN podia dar uma ajuda significativa…

Vigilância. Postos de vigia, que pudessem rapidamente alertar para os fogos, com equipes de intervenção rápida. Muitos fogos poderiam ser controlados à nascença, e com um bocado de sorte ainda se apanhava o incendiário. Onde andam os guardas florestais? Onde anda o recrutamento de jovens que se fazia há uns anos atrás para postos de vigia? Este ano era previsivelmente um ano quente e seco, deveriam ter sido tomadas mais medidas de prevenção, nomeadamente a vigilância. Há muito que os meteorologistas diziam que seria o ano mais quente de que há memória.

Coordenação. Muito se tem falado da falta de coordenação. Quem decide para onde vão os meios aéreos? Porque é que o PNPG não foi uma zona prioritária? Porque é que no incêndio de Castro de Aire estavam 300 bombeiros e no PNPG estavam 190 (segundo as informações dos média, num determinado dia)

Penas pesadas para os incendiários. Como é possível ouvir nas notícias “já com antecedentes de fogo posto”. Estas pessoas deveriam estar sobre vigilância, sobretudo em anos críticos como este!

A juntar a tudo isto há guerras de interesses. Há gente que lucra com os incêndios. Que seja pela madeira, que seja por interesses imobiliários, ou para limpar as matas grátis, ou para a construção de eólicas. Fiquei apreensivo, quando na discussão pública do novo plano de ordenamento, em conversas, as pessoas diziam que, quando não estavam contentes o parque ardia. Na altura, e já o disse, havia a discussão de interesses não compatíveis com o estatuto de Parque Nacional, de acordo com a IUNC. O curioso é que várias vertentes onde se defende a colocação de eólicas arderam: Mezio, Serra Amarela, Montalegre. Também, sintomática a crítica do Presidente da Câmara de Arcos de Valdevez, Dr. Francisco Araújo, à gestão do PNPG. Pessoalmente, não concordo com este modelo de gestão centralizado, mas não é por isso que o parque ardeu. Porque daquela enorme mancha ardida, inclusive Vilar de Suente, uma grande parte foi fora da área do parque. A Miranda, Santa Cristina, Laceiras, Tabaçô, Guilhadezes, Arcos, Rio de Moinhos… nada disso é parque, e ardeu!

Uma palavra, por último, para os Bombeiros, que acredito sinceramente que fazem o melhor possível. Dois deles morreram no combate às chamas. É um crime com que todos os incendiários tem que conviver, também são assassinos. Aos bombeiros, um BEM HAJA!

Para mim, apesar de me acusarem de não viver no PNPG, e por isso não ter direito de falar, é um Verão triste, muito triste, como já o tinha sido há 4 anos, quando ardeu o Mezio e a Travanca e toda aquela encosta!

Álvaro Amorim

Deputado Municipal do grupo do CDS-PP

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